A Reforma Tributária brasileira representa uma das maiores transformações no sistema de arrecadação das últimas décadas, e o varejo farmacêutico precisa começar a se adequar, pois a Reforma já está em andamento.
Em análise apresentada no canal da Farma Contábil, no YouTube, o contador e consultor tributário Bruno Moura detalha os impactos concretos dessa mudança para as farmácias, destacando que o desafio não será apenas fiscal, mas sobretudo estratégico e de gestão.
A promessa do novo modelo é a simplificação. No entanto, como alertam os especialistas, o caminho até lá exigirá preparo imediato, investimento em tecnologia e uma nova mentalidade por parte dos empresários.
A lógica de cobrança vai mudar
Um dos pilares da Reforma Tributária é a substituição do atual modelo de cobrança, marcado pela cumulatividade e baixa transparência, pelo Imposto sobre Valor Agregado (IVA), adotado em grande parte do mundo.
No Brasil, esse IVA será dual, composto por duas novas siglas:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), de competência federal, que substituirá o PIS e a Cofins;
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), gerido por estados e municípios, em substituição ao ICMS e ao ISS.
A principal mudança prática está no fato de que os tributos deixarão de estar embutidos no preço e passarão a ser destacados na nota fiscal, sendo calculados sobre o consumo. Isso aumenta a transparência para o consumidor e rompe com a chamada “cascata tributária”, em que impostos incidem sobre impostos ao longo da cadeia.
Segundo Bruno Moura, essa visibilidade tende a gerar maior consciência social sobre a carga tributária real, mas também pressiona o empresário a ter controle absoluto sobre sua precificação e margens.
Cronograma de transição: quando tudo começa a mudar
Embora a implementação seja gradual, o tempo para se preparar é curto. O ano de 2026 será de testes. As empresas deverão destacar nas notas fiscais os percentuais de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, permitindo que sistemas sejam ajustados e que o governo avalie a arrecadação.
Em 2027, o impacto se intensifica, pois PIS e Cofins serão extintos e substituídos integralmente pela CBS. Já o IBS inicia uma transição de dez anos, com redução progressiva de ICMS e ISS.
Isso significa que as farmácias precisam, desde já, garantir que seus sistemas de gestão e emissão fiscal estejam preparados para operar nesse novo modelo. Quem deixar para depois corre o risco de perder créditos e comprometer o fluxo de caixa.
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Crédito e débito: nova forma de apuração
Talvez o maior impacto da reforma esteja na dinâmica de créditos e débitos tributários. O novo sistema amplia significativamente as possibilidades de aproveitamento de créditos.
Além das mercadorias, a farmácia poderá gerar crédito sobre serviços essenciais ao negócio, como contabilidade, marketing, manutenção, softwares, serviços terceirizados em geral, entre outros.
Isso vale inclusive para empresas optantes pelo Simples Nacional, que passarão a conviver com essa lógica. A partir de 2027, essas empresas poderão escolher entre continuar pagando um percentual fixo sobre o faturamento ou optar por um modelo híbrido, baseado em crédito e débito, decisão que exigirá planejamento tributário rigoroso ao longo de 2026.
Na prática, o imposto deixa de ser um cálculo distante, feito apenas pelo contador, e passa a ser um elemento diário da operação da farmácia.
Precificação e impacto no consumidor final
Apesar do discurso oficial de simplificação, a expectativa real, segundo Bruno, é de aumento da carga tributária. Como o imposto será destacado “por fora”, o consumidor perceberá com mais clareza quanto paga de tributos, o que pode gerar sensibilidade ao preço final.
Para o empresário, isso exige ainda mais atenção à formação de preços, negociação com fornecedores e eficiência operacional. Quem não dominar seus números corre o risco de perder competitividade.
Tributação de dividendos e proteção patrimonial
Outro ponto de alerta levantado por Bruno Moura é a tributação de dividendos, prevista a partir de 2026. A proposta indica a cobrança de 10% de Imposto de Renda sobre lucros distribuídos que ultrapassem R$ 50 mil mensais por CPF (ou R$ 600 mil ao ano).
Diante desse cenário, o consultor recomenda estratégias legais de planejamento patrimonial e sucessório, como reorganização societária, inclusão de familiares como sócios e criação de holdings patrimoniais.
A lógica apresentada é a do “CNPJ forte e CPF fraco”, concentrando patrimônio e operações na pessoa jurídica para reduzir a incidência de impostos na pessoa física.
Orientações práticas para o empresário farmacêutico
O recado final é claro: quem se antecipar, sai na frente. Entre as principais recomendações do especialista estão:
- Profissionalizar a gestão financeira, com sistemas capazes de registrar corretamente despesas, documentos e créditos;
- Investir em educação continuada, entendendo que a reforma afetará diretamente o fluxo de caixa;
- Contar com uma contabilidade especializada no setor farmacêutico, capaz de orientar decisões estratégicas sobre regime tributário e estrutura societária.
“O sistema atual é como uma caixa preta, onde o empresário coloca dinheiro sem saber exatamente quanto é imposto e quanto é produto. A reforma transforma isso em uma vitrine transparente, em que cada centavo de imposto é visível e gera um ticket de crédito para ser usado na próxima compra”, explica Bruno.
A Reforma Tributária não é apenas uma mudança de leis, mas uma mudança de mentalidade. Para o varejo farmacêutico, ela exigirá mais controle, mais estratégia e mais protagonismo do empresário na gestão do negócio. O tempo de se preparar não é amanhã. É agora.








