Os medicamentos agonistas de GLP-1, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, deixaram de ser apenas uma tendência e passaram a provocar uma verdadeira transformação no varejo farmacêutico brasileiro. Além de impulsionarem o faturamento das farmácias, esses medicamentos estão mudando o comportamento dos consumidores, criando oportunidades de negócios e, ao mesmo tempo, aumentando os desafios relacionados à segurança e ao combate ao mercado ilegal.
Esses foram alguns dos temas discutidos em uma edição do Descomplica FarmaCast, do canal Farma Contábil, que reuniu Fábio Alguim, diretor Sênior de Relacionamento com Parceiros Estratégicos e Serviços ao Cliente do IQVIA, e Felício Laterça, advogado e delegado de Polícia Federal.
Canetas emagrecedoras já representam quase 15% do faturamento do varejo
Os números mostram que o crescimento desse mercado é muito mais do que uma moda passageira. Segundo Fábio Alguim, o mercado de agonistas de GLP-1 registrou crescimento de aproximadamente 110% em relação ao ano anterior e já movimenta cerca de R$ 36,5 bilhões, o equivalente a 14,6% do faturamento do varejo farmacêutico brasileiro.
“Se retirarmos os agonistas de GLP-1 da conta, o crescimento do varejo farmacêutico cairia de 11,7% para cerca de 8,6%. Isso mostra o peso que essa categoria já representa para o mercado”, destacou o diretor do IQVIA. Além disso, a chegada de novas marcas nacionais tende a ampliar ainda mais o acesso aos medicamentos e aumentar sua presença nas farmácias.
Efeito vai muito além da venda das canetas
O impacto não se limita aos medicamentos, pois os consumidores que utilizam agonistas de GLP-1 costumam modificar seus hábitos alimentares e de saúde, aumentando a procura por outros produtos. Entre os destaques estão whey protein, ômega-3, polivitamínicos e suplementos para manutenção da massa muscular.
Segundo Fábio, “as canetas estão puxando uma cesta inteira de produtos. O paciente passa a buscar suplementação porque reduz a ingestão alimentar e precisa preservar a massa magra.” Outro efeito observado é a redução do consumo de álcool e cigarro, além do aumento da procura por procedimentos dermatológicos e estéticos após a perda de peso.
Crescimento também trouxe um problema: o avanço do mercado ilegal
Se por um lado o mercado cresce rapidamente, por outro surgem riscos cada vez maiores. O debate chamou a atenção para a entrada de medicamentos por vias ilegais, principalmente provenientes do Paraguai e da Bolívia. Em muitos casos, esses produtos são transportados sem qualquer controle de temperatura, comprometendo completamente sua eficácia.
Segundo o delegado Felício Laterça, “estamos falando de medicamentos termolábeis. Encontramos produtos sendo transportados dentro de pneus ou próximos ao escapamento de motocicletas. Mesmo que sejam originais, nessas condições eles já perderam sua eficácia”, alerta.
A situação torna-se ainda mais grave diante do aumento das falsificações. “Já houve apreensões de canetas preenchidas apenas com soro fisiológico e até mesmo com insulina. Para uma pessoa que não precisa de insulina, isso pode representar um risco gravíssimo”, acrescentou o delegado.
Contrabando e descaminho: qual é a diferença?
Durante a entrevista, também foi esclarecida uma dúvida comum sobre os crimes envolvendo medicamentos. Felício Laterça explicou a diferença entre contrabando e descaminho. “Contrabando é quando o produto é proibido ou não possui autorização da Anvisa para comercialização no Brasil. Já o descaminho ocorre quando o produto é legal, mas entra no país sem o recolhimento dos impostos devidos.”
Além disso, a comercialização de medicamentos falsificados ou sem registro pode resultar em penas que variam entre 10 e 15 anos de prisão, além de outros crimes relacionados à receptação.
Farmácias tornam-se alvo de criminosos
Outro ponto que preocupa o setor é o aumento dos roubos. Pelo alto valor agregado e pelo pequeno volume ocupado nas embalagens, as canetas emagrecedoras passaram a atrair organizações criminosas. Como resumiu Fábio, do IQVIA, “as farmácias acabaram se tornando uma espécie de nova joalheria”.
Os dados apresentados na imprensa são preocupantes. Somente em 2025, o prejuízo estimado com roubos desses medicamentos chegou a R$ 68 milhões, com uma média de 11 assaltos por dia em farmácias do estado de São Paulo.
Entre as medidas sugeridas pelos especialistas estão trabalhar com estoques reduzidos, ampliar o uso de canais digitais para entrega em domicílio e fortalecer a comunicação entre farmácias e órgãos de segurança pública.
Mudança estrutural no varejo farmacêutico
Para os convidados do podcast, o avanço dos agonistas de GLP-1 representa uma transformação estrutural do mercado farmacêutico, e não apenas um fenômeno temporário.
A expectativa é que novas moléculas, novas marcas e futuras incorporações aos programas públicos de saúde ampliem ainda mais o acesso da população ao tratamento da obesidade.
Como destacou o diretor do IQVIA, “não estamos diante de uma tendência passageira. Estamos acompanhando uma mudança estrutural na forma como o consumidor cuida da saúde e como o varejo farmacêutico precisa se preparar para atendê-lo”.
Oportunidade exige planejamento
O crescimento acelerado desse mercado abre oportunidades importantes para as farmácias, desde a ampliação do mix de produtos até o fortalecimento dos serviços clínicos e do acompanhamento farmacêutico.
Ao mesmo tempo, exige investimentos em gestão de estoque, protocolos de segurança, qualificação das equipes e orientação adequada aos consumidores.
Mais do que vender um medicamento de alto valor, o desafio passa a ser oferecer informação, segurança e cuidado em um cenário que continuará evoluindo nos próximos anos.








