As três verdades que todo dono de farmácia deve conhecer sobre a gestão financeira de farmácias são: faturamento não é lucro, pagar menos imposto exige planejamento tributário e o contador pode ajudar a mudar seus resultados. Entender esses três pontos é fundamental para melhorar a gestão financeira e preservar a rentabilidade da farmácia.
No varejo farmacêutico, vender bem é importante, mas não basta. O resultado financeiro depende de uma série de decisões que vão das compras e do controle de estoque à formação de preços, ao planejamento tributário e à escolha dos parceiros que apoiam a gestão.
Em uma análise sobre os desafios da gestão financeira no setor, três especialistas destacam verdades que merecem a atenção dos empresários: faturamento não é lucro, imposto não se resolve na hora de pagar e o contador precisa conhecer profundamente o negócio da farmácia.
1ª verdade: faturamento não é lucro e cada real precisa ser bem administrado
Uma farmácia pode registrar um faturamento expressivo e, ainda assim, terminar o mês com pouco dinheiro disponível. Isso acontece porque a receita das vendas precisa cobrir uma série de despesas antes de se transformar em lucro.
Para explicar essa dinâmica, Wagner Lima, consultor em Varejo Farmacêutico, utiliza a analogia de uma nota de R$ 100 que vai sendo rasgada à medida que os compromissos financeiros são pagos.
Segundo a explicação apresentada pelo especialista, cerca de R$ 60 podem ser destinados ao Custo da Mercadoria Vendida (CMV), ou seja, ao custo dos produtos comercializados. Do valor restante, ainda precisam ser descontados salários, encargos, aluguel, água, energia elétrica, telefone, internet, manutenção de equipamentos, contabilidade e impostos, entre outras despesas.
Ao final desse processo, a margem de lucro líquido pode ficar entre 3% e 8% do faturamento, com aproximadamente 5% como referência para muitas farmácias.
Isso significa que, em um faturamento de R$ 100 mil, uma margem líquida de 5% representaria R$ 5 mil de lucro. O exemplo ajuda a dimensionar por que pequenas falhas de gestão podem comprometer o resultado de uma operação inteira.
Compras e estoque merecem atenção especial
Entre os principais pontos de controle está a gestão de compras. Economizar na aquisição de mercadorias pode ter um impacto financeiro mais significativo do que simplesmente aumentar as vendas.
Como destaca Wagner Lima, reduzir o CMV em R$ 1.000 pode gerar um benefício direto para o caixa, enquanto vender R$ 1.000 adicionais não significa obter o mesmo ganho, já que essa receita também envolve custos e despesas.
Por isso, o empresário precisa avaliar duas questões fundamentais:
- Quando comprar: organizar os prazos de pagamento para evitar a concentração de compromissos financeiros em datas próximas, como vencimentos de fornecedores, impostos, aluguel e folha de pagamento.
- Quanto comprar: utilizar parâmetros de estoque mínimo, máximo e ponto de reposição para evitar tanto a falta de produtos procurados quanto o excesso de mercadorias com baixo giro.
O mix também deve refletir o perfil de consumo da região atendida. Comprar sem considerar a demanda pode comprometer o capital de giro e deixar dinheiro parado nas prateleiras.
A equipe também influencia a rentabilidade
O controle financeiro não deve ser responsabilidade exclusiva do proprietário ou do gerente. Os colaboradores precisam compreender como suas atividades interferem nos custos e nas vendas.
Evitar desperdícios de água, energia elétrica e materiais de limpeza, por exemplo, contribui para a redução das despesas operacionais. Da mesma forma, melhorar a qualidade do atendimento, ampliar o ticket médio de maneira adequada e oferecer produtos complementares quando fizerem sentido para a necessidade do cliente pode favorecer a rentabilidade.
O desafio é transformar esses cuidados em uma cultura de gestão, na qual cada integrante da equipe compreenda seu papel na sustentabilidade financeira da farmácia.
2ª verdade: imposto não se resolve na hora de pagar
O pagamento dos tributos é apenas uma etapa de uma decisão que começa muito antes da emissão da guia. O planejamento tributário influencia a formação de preços, a escolha do regime fiscal, a composição do mix de produtos e a organização do fluxo de caixa.
Cadri Awad, diretor do Instituto Bulla, chama a atenção para a complexidade tributária do varejo farmacêutico e para a necessidade de tratar o assunto de maneira estratégica.
A carga tributária pode representar uma parcela relevante do faturamento, mas o impacto efetivo depende do regime adotado, das características da operação e da tributação aplicável a cada produto.
Quando a farmácia utiliza apenas o custo de aquisição e uma margem genérica para definir preços, corre o risco de calcular uma rentabilidade que não se confirma na prática. O resultado pode ser uma margem aparentemente positiva na planilha, mas insuficiente para cobrir os custos reais da operação.
Três frentes para organizar a gestão tributária
De acordo com a abordagem apresentada por Cadri Awad, o planejamento tributário deve considerar três camadas complementares: escolha do regime tributário, revisão da tributação dos produtos e preparação para a Reforma Tributária.
A transição para o novo sistema tributário brasileiro exige acompanhamento e planejamento. A implementação de tributos como a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), além de mecanismos como o split payment, pode demandar mudanças nos sistemas, nos processos financeiros e na gestão do capital de giro.
Antecipar essas análises permite que o empresário compreenda os possíveis impactos sobre preços, pagamentos, recebimentos e fluxo de caixa.
A principal recomendação é não deixar a discussão tributária para o vencimento das obrigações. O acompanhamento deve ser contínuo, com revisões sempre que houver mudanças relevantes na legislação ou na operação da farmácia.
3ª: o contador precisa conhecer o negócio da farmácia
Contratar um contador é uma obrigação para muitas empresas, mas escolher um profissional que compreenda as particularidades do varejo farmacêutico pode representar uma vantagem para a gestão.
Bruno Moura, contador da Farma Contábil, utiliza a analogia de um paciente com problemas cardíacos que procura um cardiologista. Embora um médico generalista tenha conhecimentos importantes, a especialização permite aprofundar a análise de uma condição específica.
A mesma lógica pode ser aplicada à contabilidade: conhecer as regras gerais da profissão é importante, mas compreender a dinâmica financeira, tributária e operacional de uma farmácia amplia a capacidade de orientar o empresário.
O setor possui particularidades que exigem atenção, como a diversidade de tratamentos tributários, a gestão do CMV, o controle de estoque, os prazos de fornecedores e a necessidade de manter capital de giro suficiente para sustentar a operação.
Da emissão de guias à orientação estratégica
A atuação contábil não precisa se limitar à entrega de declarações, ao processamento da folha de pagamento e à emissão de guias de impostos.
Com informações organizadas e análises adequadas, o contador pode contribuir para decisões sobre custos, endividamento, investimentos, planejamento tributário e saúde financeira do negócio.
Um exemplo é a contratação de um empréstimo bancário. Antes de assumir uma nova dívida, o empresário deve avaliar se a empresa realmente tem capacidade de pagamento e se o crédito será utilizado de maneira financeiramente viável.
O gerente do banco pode apresentar as condições da operação, mas a análise da capacidade de pagamento precisa considerar os demonstrativos financeiros, o fluxo de caixa, os compromissos já assumidos e as projeções da farmácia.
É nesse contexto que o contador especializado pode ajudar a responder perguntas fundamentais: a empresa consegue assumir essa parcela? O empréstimo financiará uma necessidade estratégica ou apenas cobrirá um desequilíbrio recorrente? O investimento previsto tem potencial para gerar retorno suficiente para justificar o custo do crédito?
Essas respostas dependem dos números e das circunstâncias de cada negócio. Por isso, a relação entre empresário e contador deve ser baseada em informações confiáveis, diálogo frequente e acompanhamento dos indicadores financeiros.
Gestão financeira exige integração entre compras, tributos e contabilidade
As três verdades apresentadas pelos especialistas estão diretamente conectadas. Uma compra mal planejada pode comprometer o capital de giro. Uma formação de preços que desconsidera a tributação pode reduzir a margem. E uma contabilidade que não oferece informações úteis à gestão dificulta a identificação desses problemas antes que eles afetem o caixa.
Por isso, a gestão financeira de uma farmácia precisa ir além do acompanhamento do faturamento e do pagamento das contas. É necessário entender de onde vem o lucro, quais despesas pressionam o resultado, como o estoque consome recursos e quais decisões podem melhorar a saúde financeira da empresa.
No varejo farmacêutico, vender é essencial, mas administrar bem cada real é o que permite transformar vendas em lucro e sustentar o crescimento da empresa.








